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ESG

Materialidade ESG: do relato à decisão

A matriz de materialidade se consolidou como peça obrigatória de relatório de sustentabilidade, mas raramente influencia a alocação de capital, a matriz de riscos corporativos ou a remuneração executiva. Devolvê-la ao lugar de instrumento de decisão estratégica exige romper com a lógica de exercício anual desconectado da gestão.

Michelle Pantoja
Michelle Pantoja
CEO & Fundadora · Junho de 2026 · 13 min de leitura

O sintoma: materialidade como exercício de comunicação

A maior parte das matrizes de materialidade produzidas por empresas brasileiras segue um roteiro previsível: consulta a públicos de interesse conduzida uma vez a cada dois ou três anos, workshop de priorização com a alta liderança, validação pela diretoria de sustentabilidade e publicação de um gráfico de dispersão na seção inicial do relatório anual. O exercício consome meses de trabalho, mobiliza dezenas de entrevistas e pesquisas, e termina, com frequência excessiva, como uma imagem estática que ilustra a página trinta e dois de um documento que poucos dentro da própria organização voltam a consultar ao longo do ano.

O problema não é primariamente metodológico. As metodologias disponíveis — desde os padrões da Global Reporting Initiative até os frameworks setoriais do Sustainability Accounting Standards Board, hoje incorporados à estrutura do International Sustainability Standards Board — são tecnicamente robustas e amplamente testadas em diferentes setores e geografias. O problema é de destino institucional: a materialidade foi concebida, na prática da maioria das organizações, para alimentar o relato ao mercado e não para alimentar a decisão interna de alocação de recursos, gestão de risco e definição de prioridades estratégicas.

Essa distorção de propósito tem consequência mensurável. Auditorias de asseguração de relatórios de sustentabilidade frequentemente identificam incoerência entre os temas apontados como materiais e os temas efetivamente presentes na matriz de riscos corporativos apresentada ao conselho de administração — evidência direta de que dois processos institucionais paralelos, conduzidos por áreas distintas com pouca interlocução, produzem leituras diferentes da mesma realidade organizacional.

Dupla materialidade: separar dois eixos que a prática costuma fundir

O conceito de dupla materialidade, formalizado pela União Europeia na Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa e progressivamente incorporado a referenciais internacionais, distingue duas perguntas analiticamente diferentes: como cada tema afeta o desempenho financeiro e o valor da organização — a materialidade financeira — e como a organização, por meio de suas operações e cadeia de valor, afeta pessoas e meio ambiente no mundo — a materialidade de impacto. Tratar essas duas dimensões em um único eixo de priorização, como ainda faz a maioria das matrizes brasileiras, produz uma média que oculta exatamente a informação mais relevante para a tomada de decisão.

Separar os dois eixos revela categorias de temas que a análise unidimensional tradicionalmente escondia: temas em que a organização exerce impacto social ou ambiental elevado, mas cuja exposição financeira direta e imediata é baixa — como certas dimensões de direitos humanos em cadeias de fornecimento de baixo custo unitário mas alto volume. É precisamente nesses temas que reside boa parte do risco reputacional, regulatório e de licença social para operar dos próximos ciclos, à medida que a regulação de devida diligência em direitos humanos e ambiente se expande internacionalmente e cria efeitos extraterritoriais sobre exportadores brasileiros.

Inversamente, a separação dos eixos também evidencia temas de alta materialidade financeira e baixa materialidade de impacto direto — tipicamente riscos macroeconômicos e regulatórios tradicionais — que continuam a justificar atenção do conselho, mas não deveriam ser apresentados ao mercado sob a mesma linguagem de sustentabilidade usada para temas de impacto social e ambiental propriamente ditos, sob pena de diluir a credibilidade do relato como um todo.

A materialidade dinâmica: de foto a processo contínuo

Um segundo problema estrutural é a temporalidade do exercício. Matrizes construídas a cada dois ou três anos capturam uma fotografia de um momento específico de percepção de públicos de interesse, mas o ambiente regulatório, tecnológico e competitivo muda em ritmo mais acelerado do que esse ciclo de revisão. Organizações mais maduras têm adotado um modelo de materialidade dinâmica, em que o conjunto de temas é revisitado anualmente com base em sinais objetivos — mudanças regulatórias, eventos de risco materializados no setor, novas exigências de investidores e clientes corporativos, evolução de indicadores de desempenho já monitorados — em vez de depender exclusivamente de uma nova rodada completa de consulta a públicos de interesse.

Esse modelo dinâmico não elimina a necessidade de consultas amplas periódicas, mas as complementa com um processo de monitoramento contínuo, tipicamente sob responsabilidade de um comitê interfuncional que reúne sustentabilidade, riscos corporativos, jurídico e relações com investidores. A vantagem é dupla: reduz o risco de a organização ser surpreendida por um tema emergente que a matriz desatualizada não havia captado, e aumenta a legitimidade interna do processo, que passa a ser percebido como parte da gestão corrente e não como projeto episódico conduzido por uma área isolada.

A integração da materialidade dinâmica ao ciclo orçamentário anual é o passo que a maioria das organizações ainda não deu. Quando a revisão de materialidade ocorre em momento desconectado do processo de planejamento orçamentário, mesmo os temas identificados como prioritários frequentemente não encontram alocação de recursos no ano seguinte, permanecendo como intenção declarada sem contrapartida financeira.

As três amarrações que transformam diagnóstico em gestão

Uma matriz de materialidade que efetivamente orienta decisão possui três amarrações institucionais que a distinguem de um exercício de diagnóstico isolado. A primeira: cada tema classificado como material está associado a um indicador de desempenho com meta quantitativa definida e responsável nomeado, de preferência em nível de diretoria, e não apenas descrito qualitativamente em texto narrativo do relatório. A segunda: cada tema material aparece explicitamente na matriz de riscos corporativos submetida ao comitê de riscos e ao conselho de administração, com metodologia de avaliação de probabilidade e impacto equivalente à utilizada para riscos financeiros e operacionais tradicionais.

A terceira amarração, e a mais frequentemente ausente, é orçamentária: cada tema material tem dotação específica no plano de investimentos e despesas do ano seguinte, com trilha de aprovação que passa pelos mesmos órgãos de governança financeira que aprovam qualquer outro investimento relevante da organização. Sem essa amarração orçamentária, o tema material permanece no campo do compromisso retórico, vulnerável a ser deprioritizado no primeiro ciclo de contenção de despesas.

Quando as três amarrações estão presentes, a matriz de materialidade deixa de ser um documento de comunicação e passa a funcionar como instrumento de governança equivalente à matriz de riscos corporativos ou ao mapa estratégico da organização — objeto de revisão periódica pelos mesmos órgãos de decisão, com consequência real sobre alocação de capital, atenção executiva e, em organizações mais avançadas, sobre parte da remuneração variável de longo prazo da diretoria.

Materialidade e remuneração executiva: o elo ainda incomum

A vinculação de parcela da remuneração variável de longo prazo da diretoria executiva a indicadores de sustentabilidade derivados diretamente da matriz de materialidade permanece prática minoritária entre companhias brasileiras, mesmo entre as listadas nos segmentos de maior exigência de governança da B3. Quando essa vinculação existe, observa-se, com frequência, o uso de metas de fácil cumprimento ou de indicadores de processo — como a existência de uma política — em vez de indicadores de resultado vinculados aos temas efetivamente identificados como materiais pela própria organização.

A robustez metodológica dessa vinculação depende de auditoria ou verificação independente dos indicadores utilizados para o cálculo da remuneração, prática já consolidada para indicadores financeiros mas ainda incipiente para indicadores de sustentabilidade. Investidores institucionais internacionais, sobretudo signatários de iniciativas como os Princípios para o Investimento Responsável, têm progressivamente exigido essa verificação como condição de credibilidade da governança de remuneração.

A ausência dessa amarração cria um paradoxo recorrente: a organização declara publicamente determinado tema como estratégico e material, mas nenhum incentivo formal alinha o comportamento da liderança executiva à evolução efetiva desse tema, o que tende a produzir, ao longo do tempo, descolamento crescente entre discurso institucional e prática de gestão observável por investidores e órgãos reguladores.

Comparação internacional: da voluntariedade à obrigatoriedade regulatória

A trajetória regulatória europeia, com a Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa e os padrões europeus de relato de sustentabilidade que a operacionalizam, tornou obrigatória a aplicação do conceito de dupla materialidade para empresas de determinado porte, inclusive multinacionais não europeias com operação relevante no bloco, criando efeito extraterritorial que já alcança exportadoras e subsidiárias brasileiras de grupos europeus. Essa obrigatoriedade contrasta com o ambiente regulatório brasileiro, ainda predominantemente voluntário quanto à metodologia de materialidade, embora a Comissão de Valores Mobiliários já sinalize movimento de convergência com os padrões do International Sustainability Standards Board.

Essa assimetria regulatória cria, no curto e médio prazo, uma situação de duas velocidades: empresas brasileiras com operação ou relação comercial relevante com mercados europeus ou com investidores signatários de padrões internacionais já operam sob exigência de dupla materialidade de fato, ainda que a regulação doméstica não a torne obrigatória, enquanto empresas de atuação exclusivamente doméstica mantêm maior discricionariedade metodológica, com risco de defasagem competitiva quando a convergência regulatória se completar.

A antecipação a esse movimento regulatório, adotando desde já metodologia de dupla materialidade e as três amarrações institucionais descritas, posiciona a organização de forma mais favorável tanto perante reguladores quanto perante financiadores e investidores que já precificam, em suas decisões de alocação de capital, a maturidade do processo de materialidade como proxy da maturidade de governança de sustentabilidade como um todo.

Perspectiva: materialidade como infraestrutura de decisão

O horizonte mais provável para os próximos ciclos é a integração progressiva da matriz de materialidade à infraestrutura de dados corporativos que já sustenta o planejamento financeiro e a gestão de riscos, superando a lógica de documento estático produzido por consultoria externa e entregue como relatório fechado. Organizações que investem em sistemas de gestão de dados de sustentabilidade integrados aos sistemas corporativos de planejamento de recursos conseguem atualizar indicadores materiais com a mesma frequência com que atualizam indicadores financeiros, eliminando a defasagem que hoje caracteriza a maior parte dos processos.

Essa integração tecnológica, contudo, não resolve por si só o problema de propósito institucional discutido ao longo deste texto. Uma matriz tecnologicamente sofisticada, mas desconectada das três amarrações de indicador, risco e orçamento, continua sendo, em essência, um exercício de comunicação com aparência mais moderna. A transformação real exige decisão de governança — do conselho e da diretoria executiva — de tratar a materialidade como instrumento de gestão estratégica e não como subproduto do processo de relato.

Michelle Pantoja
Michelle Pantoja

CEO e Fundadora da PJ Soluções. Bacharel em Direito, MBA em Gestão Pública e em Direitos Humanos, pós-graduada em ESG e certificada pela United Nations System Staff College (UNSSC).

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